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Vigilância e segurança

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O jornal norte americano The New York Times passou um ano analisando mais de 100 mil documentos de licitações do governo chinês para sistemas de vigilância eletrônica. O resultado da investigação demonstra que a rede de informação e rastreamento dos cidadãos chineses é abrangente de um modo nunca visto anteriormente e que, nos planos do país, ainda será mais profunda. É tanto controle que nos transporta automaticamente para dentro do livro 1984, de George Orwell, onde em uma sociedade fictícia todas as ações dos habitantes eram monitoradas e até uma nova língua criada, retirando as palavras que pudessem suscitar alguma resistência à nova ordem instituída.

Câmeras

Segundo o jornal mais da metade das câmeras de vigilância do mundo funcionam na China e por lá muitas delas, além do sistema de mapeamento da face, são equipadas com monitoramento de som e, com isso, o tom de voz dos chineses que passam pelos equipamentos é atrelado aos seus rostos. Daí o sistema, mesmo sem “ver”, passa a ter mais uma forma de identificar cada cidadão. Uma fala em um telefone ou interfone, ou o sussurro em um corredor, conjugado à imagem de uma câmera nos arredores torna a identificação de cada pessoa ainda mais precisa. 

Celular, o grande “dedo-duro”

Cada aparelho que está nas nossas mãos possui uma identidade. Além do IMEI há um identificador da placa de rede chamado de endereço MAC, único e que assim que o aparelho tenta conectar com alguma rede wi-fi é usado pelos sistemas de gerenciamento para fazer a conexão. O endereço não deixa que o dono do aparelho seja identificado, a menos que esse o permita, e na China nem é preciso falar que essa permissão vem fácil, ainda mais com o apoio da propaganda estatal.

O papel da mídia estatal chinesa

Como parte da reportagem o jornal norte americano mostrou que a mídia estatal da China trabalha de forma incisiva divulgando que a vigilância vem para garantir a segurança. Nesse ponto me lembro de novo do livro de Orwell onde, como parte do convencimento da população, uma guerra fictícia era travada com um país inimigo, inclusive com ataques orquestrados e devidamente divulgados e, já dando aqui um spoiler para quem não leu ou não teve a oportunidade de ver o filme, o personagem principal descobre em um dado momento que até o manifesto que alimenta o grupo opositor ao regime, foi co-criação do próprio governo dominante.   Qualquer semelhança com a atuação do governo Chinês, revelada pela matéria do Times, não é mera coincidência, ainda mais com o fato de que o governo chinês monitora também o comportamento na internet, onde Instagram, Facebook etc são inclusive bloqueados e substituídos por sistemas similares locais e, claro, rastreados. 

DNA e Íris

Para dar ainda mais arrepios, os repórteres descobriram em diversos documentos e inclusive em apresentações de fornecedores e de forças de segurança do país asiático que um programa de mapeamento da íris e do DNA, indicadores ainda mais personalizados e impossíveis de serem iguais entre pessoas, está sendo implementado de vento em popa, de novo, sobre o manto de uma suposta garantia de segurança contra criminosos. Na reportagem uma vertente já manifestada pelos órgãos de segurança chineses, ainda mais impressionante, nos leva a outra obra de ficção, o filme Minority Report, onde os crimes são impedidos de acontecer pela análise de comportamentos e ações que, através de um sistema de inteligência artificial, permite que, com base nos dados, se possa “prever o futuro”. O que alguns documentos aos quais os repórteres tiveram acesso mostram é que ja existe uma linha de pesquisa onde esperq-se que, com base em acontecimentos anteriores e cruzamentos com DNA, histórico familiar, etc, o sistema de segurança possa indicar que alguém estaria inclinado à “possibilidade de cometer um crime”. O que fariam com essa informação não ficou claro nos documentos.

Incômodo

Convivo no meio tecnológico e escrevo sobre o assunto há bastante tempo e não me recordo de ter ficado tão incomodado com algo. Que regimes autoritários sonham, dia e noite, em ter o controle das pessoas isso não é novidade alguma e, por isso, penso ser importante que estejamos sempre atentos ao “canto da sereia” que vez por outra surge de que vigiados estamos mais seguros. O fato de que há um limite entre vigilância e privacidade, pelo menos em países livres, deve sempre ser levado em conta. Veja por exemplo a norte-americana Meta que, pelo menos pelo que noticiou, descontinuou a plataforma de reconhecimento facial para uso de detalhamento de perfil de consumo, que rastreava rostos nas fotos e videos do Instagram e Facebook. Na nota de esclarecimento a empresa de Mark Zuckeberg frisou que o risco de invasão de privacidade era maior do que a empresa julgava seguro e que a solução, caso retorne, será apenas para identificação cruzada de acesso à plataforma ou para auxílio a deficientes visuais. Claro que investir em segurança, ainda mais no ponto em que nosso país chegou, se tornou essencial mas será que mais educados e com direitos sociais respeitados a nossa segurança não seria maior? Será que não é possível vivermos mais seguros sem a perda da privacidade e da liberdade?  Pode ser que isso seja utópico mas, penso, alem de investir pesadamente em tecnologia para vigiar, a tecnologia para educar e cuidar da população também deva ser priorizada. 

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