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Tem quadrilha, sim senhor! Juninas têm programação lotada na volta do São João

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Em 2020 e 2021, não teve nenhuma quadrilha na Bahia que ouvisse de seu marcador – responsável por ditar o ritmo e dar comandos aos brincantes – um alavantú ou mesmo um anarriê. Nas quadras, ao invés das apresentações dos grupos – que costumam correr todo o estado em junho e também no começo de julho – apenas o vazio causado pela pandemia. 

O hiato se encerrou ‘oficialmente’ no último dia 4, no Arraiá do Galinho, em Salvador, quando algumas das quadrilhas mais tradicionais do estado se apresentaram na abertura da temporada de 2022. A Fulô de Caju, quadrilha de Acajutiba, no leste do estado, é uma das que têm presença garantida em vários eventos este mês. “Além de apresentações na nossa própria cidade, vamos passar por diversos municípios do estado”, conta Erivan Santos, presidente da Fulô.

Carlos Brito é presidente da Federação Baiana das Quadrilhas Juninas (Febaq). Ele diz que a comunidade corre para tornar a programação junina possível desde abril, quando foi anunciada a realização do São João. “Realizamos assembleias quinzenais com as afiliadas para otimizar a preparação e, para que as quadrilhas pudessem estar nas quadras, abrimos mão de requisitos comuns e facilitamos o processo”, conta Brito, garantindo que vai ter festival de quadrilhas nos quatro cantos da Bahia. 

 
Saudade da quadra
Os brincantes também estão na correria. Altamira Lôbo de Araújo, 67 anos, conhecida como Dona Nenca, fundou, há 53 anos, a Junina Mirim do bairro Alto da Terezinha, periferia de Salvador. Em 2016, a junina, já adulta, virou a Imperatriz do Forró, que tem hoje 60 componentes. 

Na preparação para este ano, ela faz de tudo: ajuda com as roupas, produz eventos e até vende comida para reunir recursos para a junina. Toda uma mobilização que dura anos e que, neste, é ainda mais justificada pela saudade que sente das apresentações.  “Sinto muita falta em primeiro lugar da energia do público. Trabalhamos muito tempo para entregar uma boa apresentação e, quando entramos em quadra e sentimos a vibração deles, é a resposta daquilo que lutamos o tempo todo para fazer. Por isso, a saudade é grande. Sem os festivais e concursos, não temos contato com essa energia”, conta ela, que é brincante desde os 14 anos.

Outro que não se aguenta de saudade de Renan Augusto, 30, fundador e marcador da Xiado do Xhinelo, que surgiu em 2014 e tem como característica principal apresentar temas que fujam da realidade junina, como Yemanjá, povos indígenas e a história da TV. De Caculé, no sudoeste da Bahia, ele não vê a hora de sair pelas quadras do estado. “A gente sentiu muito os dois anos parados, só de ouvir uma música junina dava um aperto no coração de querer estar na quadra e não poder. A alegria, a realização e a troca com o público são as coisas que mais fazem falta. Coisas que lembramos, mas não sentimos desde 2019”, fala Renan. 

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Xiado do Xinelo apresentou tema ‘Favela’ em 2019 (Foto: Reprodução)

Thiago Ferraz, 32, é o noivo da junina Forró do ABC, de Salvador, desde 2014 e quer logo voltar a casar em quadra. Ele começou a competir por quadrilhas em 2005, no estado de Pernambuco, e nunca tinha ficado tanto tempo sem se apresentar. “Em 2017, por uma constância de trabalho muito grande, eu fiz uma pausa, mas voltei logo em 2018. (…) Ficar parado esses dois anos foi bem complicado. Mais do que trabalhar com dança, a gente exerce uma paixão dançando na junina. A quadrilha é um divisor de águas para mim como profissional. Então, fez muita falta”, relata Thiago. 

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Thiago é noivo da Forró do ABC (Foto: Acervo Pessoal)

Ensaio atrás de ensaio
Para matar a saudade mantendo o alto nível de performance, não tem outro jeito: é ensaio atrás de ensaio. Jana Reis, 33, é rainha da Fulô de Caju e conta um pouco de como tem sido a preparação da quadrilha que representa Acajutiba. “Como Rainha, tenho a responsabilidade de ser referência para as meninas daqui, de estar arrumada sempre no começo dos ensaios. Os últimos meses de preparação reúnem um volume grande de ensaios, a missão de comprar as coisas e a tarefa de organizar tudo”, conta ela, eleita melhor rainha de 2021 pelo concurso da União Junina Norte e Nordeste da Bahia (UJNN).
 
Dona Nenca também relata um dia a dia de muito trabalho para a Imperatriz do Forró no processo de preparação para o São João de 2022, além da chegada de mais integrantes com a proximidade da festa. “Toda semana, chega um povo novo. E a gente está aqui lutando, fazendo o possível, precisando de mais costureiras para a confecção das roupas porque é muita coisa, mas caminhando. Como foi em cima da hora, estamos aqui pela misericórdia, dando nosso jeito. Correndo com tudo, seja ensaio, produção, compra de material, mas vai dar certo”, diz a fundadora da quadrilha, otimista com as apresentações.

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Imperatriz do Forró é uma junina tradicional de Salvador (Foto: Acervo)

Adeilson de Sousa, 47, é coreógrafo e diretor financeiro da Cia Junina, de Itaparica e Vera Cruz, que existe há 20 anos. Desde 2015, a junina compete entre as maiores quadrilhas do estado e, em 2019, foi campeã do concurso estadual. Para 2022, ele relata um ritmo intenso na preparação. “Muita correria, a gente não para. É que a mão de obra nem sempre responde nossa demanda aqui. Tem que comprar sapato em Pernambuco, as nossas roupas em Feira de Santana. Ensaio nem se fala! Sexta, sábado e domingo na quadra. Sendo que de sábado para domingo, dormimos no alojamento para começar cedo o ensaio e conseguir aproveitar melhor”, conta ele, revelando também que a Cia tem 117 pessoas integradas ao grupo.

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Cia Junina foi campeã estadual em 2019 (Foto: Acervo)

Sem apoio
Colocar a Cia Junina na quadra com materiais adequados para montagem do tema da quadrilha só é possível porque a junina, diferente da maioria, conta com apoio público das prefeituras de Vera Cruz e Itaparica, que custeiam grande parte dos gastos. “Temos uma apoio forte das prefeituras, que nos ajudam bastante nisso. Porém, também buscamos apoio privado, patrocinadores e é muito complicado. Praticamente, não existe apoio privado. Por isso, temos que fazer ações para conseguir verbas, além de contar com a contribuição dos próprios brincantes”, relata Adeilson.
 
Se a Cia, que tem apoio público, precisa suar para fechar a conta e estar nos eventos sem prejuízo, a dificuldade é ainda maior para as que não recebem verba. Esse é o caso da Imperatriz do Forró, segundo Armany Celebridade, presidente da quadrilha. “É uma quadrilha do subúrbio, sem apoio. Temos muitos jovens no elenco que não têm renda e não podem bancar o figurino. Neste ano, depois da pandemia e ainda sem apoio, a missão ficou muito difícil. Tem que gostar muito para manter e ela está em pé ainda por isso, porque a gente ama”, afirma ele, que diz sonhar com um apoio da prefeitura ou da gestão estadual para a Imperatriz.
 
Diretor da Forró do ABC, Anderson Orrico conta que para a junina também é árdua a tarefa de viabilizar toda a preparação de figurinos e logística para as apresentações. “Colocar a quadrilha na quadra, coordenando todos os preparativos é difícil. Tem coreógrafo, figurinistas e costureiras. Pessoas que nos ajudam muito e recebem por isso, mas uma ajuda de custo apenas porque não temos condições de pagar mais. E, mesmo pagando pouco, há toda uma correria pra patrocínio, apoio e carnê dos brincantes para botar, há 40 anos, a junina na rua”, explica ele, contando que o carnê pago pelos brincantes é, normalmente, de R$ 1 mil. Neste ano, por conta da pandemia, ficou em R$ 500 com reduções em estrutura e figurino.

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Ensaio da Forró do ABC (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Da Europa
Todo esse esforço citado pelo diretor da ABC, e que também é feito em outras quadrilhas do estado, só acontece por um motivo, de acordo com todos os entrevistados: a vontade de manter a cultura junina viva. Cultura mais que consolidada no Nordeste e na Bahia, mas que não nasceu por aqui. Historiador, Manoel Passos conta que a tradição vem do outro lado do Oceano Atlântico, de onde o marcador faz ‘biquinho’ para dizer o Anarriê e o Alavantú de lá. “De Portugal, veio o catolicismo. E a festa junina, oriunda da religiosidade, é uma herança de lá. […] Já a quadrilha em específico, vem da França. A junina daqui é uma estilização do que veio de lá, adaptada a nossa cultura”, explica Passos.
 
O processo que o historiador chama de ‘nordestinação’ da quadrilha deu tão certo que, mais do que uma paixão para os brincantes, as juninas se converteram em patrimônio sociocultural por aqui. Pelo menos, é isso que garante Carlos Brito. “Os dois anos de paralisação causaram um prejuízo financeiro alto, mas uma perda cultural ainda maior. […] As quadrilhas são uma grande manifestação cultural, que acontece por meio de espetáculos. Elemento fundamental para manutenção das nossas tradições e importante nas comunidades como apoio social e educacional. Para quem não conhece, dá para dizer, sem medo, que as quadrilhas representam tanto quanto as escolas de samba no sudeste”, afirma o presidente da Febaq.
 
Quando se olha apenas para o núcleo financeiro ligado à manifestação, os envolvidos na cultura de quadrilhas garantem que toda uma cadeia de produção econômica foi prejudicada no hiato. Manoel Passos explica o porquê: “Com a consolidação das juninas e a estilização destas, há um movimento de produção que é daqui. Precisa de decoração, figurino e muitas outras coisas que vêm da mão de obra daqui e que estabelece uma economia em torno disso”, completa. A Superintendência de Fomento ao Turismo do Estado da Bahia (Bahiatursa) foi procurada pela reportagem para comentar o retorno das juninas e seu impacto para economia, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.
 
Programação

Apresentações das quadrilhas

Fulô de Caju – Acajutiba  (@juninafulodecaju)

•    19/06 – Salvador – Campeonato estadual em Periperi
•    21/06 – Acajutiba
•    22/06 – Riachão Jacuípe
•    23/06 – Inhambupe
•    26/06 – Valença
•    28/06 – Acajutiba
•    29/06 – Simões Filho
•    01/07 – Ilha de Itaparica
•    03/07 – Dias Dávila
•    09 ou 10/07 – Entre Rios

Imperatriz do Forró – Salvador (@imperatrizdoforro_ba_oficial)

•    19/06 – Salvador – Campeonato estadual em Periperi
•    21/06 – Salvador – Festival no Pelourinho
•    22/06 – Riachão Jacuípe
•    25/06 – Nazaré das Farinhas
•    26/06 – Valença
•    27/06 – Simões Filho
•    28/06 – Itaparica
•    03/07 – Dias Dávila
•    09 ou 10/07 – Entre Rios

Cia da Ilha – Itaparica (@ciajuninaoficial)

•    21/06 – Riachão do Jacuípe
•    25/06 – Nazaré das Farinhas
•    26/06 – Valença
•    28/06 – Itaparica
•    29/06 – Simões Filho
•    03/07 – Dias Dávila

Forró do ABC – Salvador (@forrodoabc)

•    19/06 – Salvador – Campeonato estadual em Periperi
•    22/06 – Pojuca
•    23/06 – Salvador – Apresentação no bairro de Pero Vaz
•    24/06 – Costa do Sauípe
•    25/06 – Nazaré das Farinhas
•    29/06 – Salvador – Apresentação no bairro do Candeal
•    29/06 – Simões Filho
•    01/07 – Itaparica
•    03/07 – Dias Dávila
•    09 ou 10/07 – Entre Rios

Xiado do XInelo – Caculé (@xiadodoxinelo.of)

•    19/06 – Caculé

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