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O homem que lê Sidarta

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Estava na travessia do ferry-boat vendo a cidade se afastar e o mar tomar conta do horizonte. Pudim latia sem parar, incomodado com o vento e o balanço do navio e eu tentava acalmá-lo. Foi quando um senhor de aparência modesta se aproximou e começou a conversar. Pediu um trocado, qualquer coisa, para comprar comida. Dei-lhe algum dinheiro. Ele tinha nas costas um saco com latinhas de alumínio para reciclagem. Carapinha branca, olhos de um cinza aguado.

Perguntou a raça de Pudim e disse que já tivera um husky siberiano lindíssimo. “Morreu envenenado pelo vizinho”, acrescentou com os olhos marejados. Continuamos a conversar e ele foi contando a sua vida como quem desenrola um novelo. Disse que trabalhou como rodoviário numa empresa de ônibus, mas foi demitido com o fim da empresa e não conseguiu mais emprego. Agora mora na rua com a mulher, que é formada em pedagogia.

Então ele me olhou e disse que eu parecia gostar de livros. Citou um romance que adorava: Sidarta. Eu emendei: Herman Hesse. Ele abriu os olhos com espanto e emoção: “Nossa, fiquei arrepiado”. Eu disse que ainda não havia lido Sidarta, apenas O Lobo da Estepe. “Pô, queria muito ler esse, vivo procurando”. Perguntou o que achei dele e eu disse que tinha gostado, que era instigante. Então começou a discorrer sobre o início de Sidarta, que fazia alusão a um suicídio e tinha algo sobre ponteiros de um relógio, não entendi bem. Fiquei interessado em fuçar a velha edição que tenho em casa.

Em seguida, o senhor falou sobre o dicionário Aurélio que guarda consigo. E de como, no meio da noite, sua mulher costuma acordá-lo com alguma palavra martelando na mente, para que ele procure no dicionário o seu significado. Sua conversa, apesar de tortuosa, era rica e minuciosa. Era um homem surpreendentemente culto. Conversamos mais um pouco, até ele se despedir, dizendo que precisava obter mais algum para o próprio sustento.

Ele se foi e fiquei com Pudim ainda latindo e o ferry-boat jogando feito louco. Pensei no quanto pessoas como esse senhor poderiam se desenvolver intelectualmente de forma plena, se a elas fosse dado um caminho, uma clareira, um cais de porto onde atracar. Mas, bem, este não é um país de oportunidades. É, isso sim, uma nação de ilusões perdidas, onde a um homem que lê Herman Hesse só resta a rua como morada. Um país em destroços que não fornece o básico para o nosso desenvolvimento intelectual, moral, espiritual.

Aqui, jornalistas e ativistas ambientais são assassinados, esquartejados e queimados. Aqui, a miséria extrema se eterniza como uma chaga sem cura. É o país do cinismo, da brutalidade, do crime organizado e institucionalizado, personificados na figura de um indivíduo néscio e corrupto, apologista da violência e da destruição ambiental. É a nossa ruína, a nossa sina, o nosso malogro. Mas, espero, tudo isso tem prazo de validade.

Como diz a nova canção de Chico, que exorciza a barbárie e prenuncia tempo bom e céu claro: “Depois de tanta mutreta/ Depois de tanta cascata/ Depois de tanta derrota/ Depois de tanta demência/ E uma dor filha da puta, que tal?/ Puxar um samba/ Que tal um samba?”. São versos alvissareiros, muito bem-vindos depois da longa desdita de quatro anos em que estamos metidos. E que, mesmo com toda gana e vontade de acertar, não vai ser fácil apagar.

Que venha o tempo do samba então. Da alegria desmedida, do gozar sem culpa, do partilhar mais justo, dos abraços, beijos e afagos. E que possamos, como no verso de Caetano, ver uma trilha clara para o nosso Brasil, apesar da dor. Nessa vertigem visionária, torço pela felicidade de pessoas como esse morador de rua que, em sua morada aviltante, lê Sidarta e cata palavras num dicionário para oferecer à mulher amada.

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