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João Carlos Salles, reitor da Ufba, lança livro de ensaios nesta quarta (15)

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João Carlos Salles, filósofo e reitor da UFBA, lança hoje, no Campus de São Lázaro, às 10h, o livro Ernst Cassirer e o Nazismo: e Outros Textos Sobre a Proximidade do Mal (Editora Noir/98 págs/R$ 50). A publicação reúne uma série de ensaios e, no principal deles, Salles reflete sobre a obra do filósofo Ernst Cassirer (1874-1945) em sua reação ao nazismo e sobre manifestações diversas de obscurantismo que hoje atingem o Brasil.

“O mal anula a possibilidade da comunicação e, por exemplo, separa educação e democracia”, afirma Salles. Mas, afinal, o que é o mal? “O mal é tema constante na história da humanidade, mas dificilmente encontraremos uma definição comum, uma que seja independente do contexto em que é pensado, contexto que pode ser político, filosófico, psicológico ou até religioso. Assim, para pensar em casos extremos, tanto há uma tendência a personificar o mal, quanto há uma tendência em fazê-lo coincidir com uma ausência, uma privação, uma falta”, acrescenta o autor.

Salles aponta que o mal está presente em manifestações extremas da tirania política, na anulação do outro ou na destruição do espaço público. “Assim como pressentimos sua proximidade na agressão mais pessoal, no dano mais íntimo. Dessa forma, pude evitar uma definição, que teria o pecado talvez de imaginar uma substância única a perpassar casos afastados entre si, mas sugeri uma semelhança de família, que, mesmo sem uma definição precisa, podemos bem reconhecer”.

Os ataques à Universidade pelo MEC em 2019, com cortes de verbas, também são tema de alguns textos. O reitor, que deixa o cargo em agosto, depois de duas gestões e oito anos à frente da UFBA, defende a instituição como um centro transformador da cultura, de um conhecimento que não deve ser somente instrumental, no sentido de organizar uma forma sofisticada de educação. A vida universitária, diz ele, é o lugar do encontro e a instituição um espaço público sobretudo simbólico, não é um mero espaço físico. “Por isso mesmo, é público se os comportamentos visam à constituição das condições de um diálogo desimpedido”, afirma.

Serviço

Ernst Cassirer e o Nazismo e Outros Textos Sobre a Proximidade do mal 
De João Carlos Salles
Editora Noir
98 páginas
R$ 49,90
Lançamento: Quarta-feira, 10h, no Campus da Ufba de São Lázaro

ENTREVISTA

No título do livro, o senhor fala em “mal”. Como definiria o “mal”?

O mal é tema constante na história da humanidade, mas dificilmente encontraremos uma definição comum, uma que seja independente do contexto em que é pensado, contexto que pode ser político, filosófico, psicológico ou até religioso. Assim, para pensar em casos extremos, tanto há uma tendência a personificar o mal, quanto há uma tendência em fazê-lo coincidir com uma ausência, uma privação, uma falta. No meu caso, preferi descrever o mal segundo alguns traços, mostrando seu efeito de destruir laços, em impedir a comunicação, em destruir um tecido comum de confiança e solidariedade. O mal foi tomado assim como o que quebra laços, divide, separa, destrói. Podemos reconhecer então o mal em manifestações extremas da tirania política, na anulação do outro, na destruição do espaço público, assim como pressentimos sua proximidade na agressão mais pessoal, no dano mais íntimo. Dessa forma, pude evitar uma definição, que teria o pecado talvez de imaginar uma substância única a perpassar casos afastados entre si, mas sugeri uma semelhança de família, que, mesmo sem uma definição precisa, podemos bem reconhecer. Que me valha aqui um poema, uns célebres versos de Goethe, que traduzi e coloquei em meu livro, como se fosse uma autodeclaração do mal, como a expressão do negativo, do que destrói os caminhos e nos separa, por vezes, de nós mesmos. É a fala de Mefistófeles apresentando-se a Fausto:

Sou o espírito que sempre nega!
E isso com razão, pois merece morrer
tudo que a vida traz e entrega 
– e logo melhor seria nada vir a ser.
Portanto, pecado, destruição, o mal,
como assim nomeia seu pensamento,
é meu integral e próprio elemento.

Por que o mal “anula a possibilidade da comunicação”, como diz o senhor no material de divulgação do livro?

Se nos voltarmos à constituição de um espaço no qual pode se expressar o bem comum, o mal atua desqualificando as pessoas e impedindo a comunicação. Logo, devemos compreender como um mal o que venha a diminuir quem deve ser igualado, fazendo com que a invocação de igualdade seja no máximo nominal e nunca uma realidade. Devemos reconhecer como uma manifestação do mal a substituição da palavra pela força, levando-nos até a desconfiar da própria linguagem. Estará presente também o mal no que venha a deixar de acolher o outro, trazendo neblina e sombra para o que deveria ser capacidade de entendimento. Por isso, compromete-se a comunicação. A desconfiança ocupa o terreno do diálogo, e nossas divergências e consensos não encontram uma medida mais elevada de qualidade. Um contraponto ao mal, então, podemos dizer, é o exercício mais radical da democracia.
 
Por que decidiu lançar o livro neste momento? Está relacionado ao contexto político atual do país?

Talvez tenha sido o contrário. O atual contexto político do país levou-me a tais reflexões. Em especial, a necessidade constante de reação aos ataques à educação, à ciência, à cultura e às artes. Lembrando o principal capítulo do livro, “Cassirer e o Nazismo”, o atual obscurantismo fez avivar analogias com um momento que todos nós não hesitaríamos em identificar como um dos mais nefastos e maléficos da nossa história. Entretanto, muitos ainda se recusam a reconhecer aquele momento de pura tirania e violência como assemelhado a nosso contexto atual. Certamente, há muitas e significativas diferenças, mas as semelhanças não são desprezíveis, de sorte que, diante do contexto político atual, em gestos de resistência, temos o dever sim de refletir e recusar as manifestações autoritárias e obscurantistas que ora ameaçam e atingem nossa sociedade.

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