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Encontro com Biden dá a Bolsonaro oportunidade de romper isolamento

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RICARDO DELLA COLETTA E RAFAEL BALAGO
BRASÍLIA, DF, E WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – Jair Bolsonaro (PL) desembarca nos próximos dias em Los Angeles para seu primeiro encontro com o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em uma agenda vista pelo Palácio do Planalto como a oportunidade para romper a imagem de isolamento e “pária” internacional do líder brasileiro.

A reunião, realizada em meio à Cúpula das Américas, ocorre um ano e meio após Biden chegar à Presidência, período em que os dois presidentes nunca se encontraram.

A inexistência de diálogo entre os chefes das duas maiores economias do continente não é por acaso. Bolsonaro era considerado uma figura tóxica pela Casa Branca, e assessores de Biden descartavam a possibilidade até de um telefonema –um encontro estava menos ainda no radar.

A guinada na política externa dos EUA é resultado de diferentes fatores. No plano imediato, a possibilidade de a Cúpula das Américas se transformar em um fracasso diplomático devido à ausência dos países mais importantes da América Latina foi explorada por Bolsonaro e aliados, que valorizaram o passe da presença do brasileiro.
Mas interlocutores ressaltam que a dinâmica da relação bilateral sofreu alterações e que temas antes predominantes –como clima e meio ambiente– perderam espaço diante de um quadro geopolítico conflagrado e marcado pela Guerra da Ucrânia.

“Trata-se de uma mudança muito profunda da posição dos EUA. Significa uma concessão de legitimidade internacional, a despeito de ele [Bolsonaro] ter uma política ambiental devastadora, de afrontar a democracia e de ter uma posição muito dúbia em relação ao conflito na Ucrânia”, avalia Hussein Kalout, pesquisador na Universidade Harvard e conselheiro do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais).

Para Paulo Abrão, pesquisador na Universidade Brown e diretor do Washington Brazil Office, a reunião será para Bolsonaro uma oportunidade de “reverter sua imagem de despreparo na arena internacional”. “Ele só tem a ganhar em uma reunião cuja origem é um pedido do próprio Biden, em um contexto no qual os EUA querem o Brasil mais distante da Rússia e da China”, afirma.

Bolsonaro só decidiu ir a Los Angeles depois de receber um emissário de Biden em Brasília. Além de afirmar que o democrata aceitaria se reunir com o brasileiro à margem da cúpula, o ex-senador Christopher Dodd disse que os EUA não pretendem criar constrangimentos para o líder brasileiro durante o evento.

O Planalto entendeu a mensagem como uma promessa de que Biden não deve fazer cobranças para que Bolsonaro pare de promover ataques golpistas ao sistema eleitoral.

A possibilidade de uma cobrança do tipo era citada como uma das razões pelas quais Bolsonaro não deveria viajar, principalmente após a agência de notícias Reuters divulgar que, em 2021, o chefe da CIA teria transmitido mensagem semelhante em Brasília.

Especialistas convergem na análise de que são baixas as chances de algum anúncio robusto após a conversa dos líderes. Diplomatas americanos e brasileiros não estão trabalhando em um comunicado conjunto para a ocasião.

Os efeitos serão principalmente simbólicos, e Bolsonaro parece ser o grande beneficiado. Ao tirar a foto com Biden, terá um argumento para dizer que, ao contrário do que afirmam seus críticos, não é um líder isolado e sem relevância no cenário internacional.

“A conversa entre os presidentes cobrirá uma gama ampla de tópicos. Insegurança alimentar, resposta econômica à pandemia, saúde. E o tema da mudança climática, algo que o presidente [Biden] tem deixado claro como prioridade”, disse Juan González, diretor para o Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional dos EUA.

Questionado sobre os ataques de Bolsonaro ao sistema eleitoral, González disse que os EUA confiam nas instituições locais. “A questão das eleições brasileiras é algo para os brasileiros decidirem.”
Perguntado sobre o mesmo tema, o embaixador Pedro Miguel da Costa e Silva, chefe da secretaria de Américas no Itamaraty, destaca que a defesa da democracia é um assunto que o governo aborda com tranquilidade.

“Um dos documentos que estamos discutindo na cúpula é sobre democracia e direitos humanos. O Brasil está participando dessa negociação desde o início, e é um tema tranquilo para nós. Os compromissos que o Brasil assumiu internacionalmente fazem com que a discussão seja muito tranquila”, disse.

A pauta da reunião entre Bolsonaro e Biden será definida em última instância pelos próprios líderes, mas as diplomacias dos dois países sugerem uma gama de assuntos. Além do documento sobre democracia, a expectativa é que os líderes em Los Angeles assinem outras declarações conjuntas, em discussão.

Há ainda uma negociação em relação a um texto sobre migração, mas trata-se de um tema delicado. “A problemática da migração não pode ser vista só do ponto de vista dos americanos”, afirma Costa e Silva.
A nona edição da Cúpula das Américas, de segunda (6) a sexta (10), foi pensada por Washington para simbolizar o retorno da liderança dos EUA em assuntos da América Latina, após a Presidência de Donald Trump, durante a qual temas da região ficaram em segundo plano –na última cúpula, em 2018, o republicano não foi a Lima, no Peru.

O evento, no entanto, sofreu o risco de ficar esvaziado após Bolsonaro e o presidente do México, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, terem sinalizado que não pretendiam comparecer. Até este sábado, ao menos 15 países haviam confirmado presença.

No caso de AMLO, a possível ausência é uma resposta à decisão dos americanos de não convidarem para o encontro os líderes de Cuba, Nicarágua e Venezuela, ditaduras tratadas como párias pelos EUA.
Depois de Los Angeles, Bolsonaro deve esticar a viagem até Orlando, na Flórida, para inaugurar um vice-consulado do Brasil e encontrar apoiadores. Na mesma data devem estar na cidade o deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) e o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, considerado foragido pela Justiça brasileira.

Para Benjamin Gedan, diretor de América Latina no Wilson Center, o risco de esvaziamento foi um sinal claro sobre o grande ceticismo que há em relação ao encontro. “Os EUA provavelmente não vão anunciar investimentos em larga escala na América Latina ou propor novos tratados.”

Uma das propostas comentadas por autoridades americanas é o avanço do “nearshoring”: trazer para a América Latina parte das cadeias de produção industriais hoje baseadas na Ásia. A medida ajudaria a reduzir a dependência econômica da China e a gerar empregos em países onde as pessoas querem emigrar.

Segundo o Departamento de Estado, o setor privado já teria anunciado investimentos de ao menos US$ 1,2 bilhão na América Central, após pedido da vice Kamala Harris.

“Para as economias menores, esse movimento poderia servir para conter a influência econômica da China e da Rússia. Porém, a efetividade disso para o Brasil é mais complexa. A China é o nosso principal parceiro comercial e os próprios EUA são nosso maior competidor no fornecimento de commodities agrícolas para Pequim”, avalia Paulo Abrão.

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