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Diretora de filmes eróticos ensina famílias a abordarem a pornografia com as crianças

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Os pais precisam abandonar a ideia de que os filhos, por menores que sejam, nunca assistiram pornografia. Porque sim, é provável que já tenham visto. “Todas as crianças terão acesso à pornografia cada vez mais cedo e precisamos prepará-las para o que verão”, diz Erika Lust, diretora de pornôs considerados feministas. Há um mês, ela e duas parceiras coordenam uma plataforma que incentiva as famílias a lidarem com o tema. 

O site educativo leva o nome de The Porn Conversation [A conversa pornô, na tradução do inglês], o que equivale à expressão ‘aquela conversa’, usada por muitos pais quando se vêm diante das perguntas capciosas das crianças. O material gratuito é resultado da parceria de Lust com a sexóloga Avril Clarke e a educadora sexual Bianca Laureano.

A diretora sueca defende que não é a falta de diálogo que impede crianças de assistirem pornô e que não adianta dizer: “vou banir os dispositivos móveis e isso vai resolver”, afirma. Hoje, “a pornografia já se tornou a educadora sexual das crianças”, acrescenta.

“Quando elas não têm acesso à educação sexual adequada, vão aprender sobre sexo por meio de sites e isso, muitas vezes, quer dizer que vão aprender sobre sexo por meio de pornografia, que está a apenas um clique de distância”, pontua.

A exposição de crianças à pornografia pode causar problemas de saúde mental e expô-las à violência sexual, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Quando vulneráveis a conteúdos que retratam abusos e misoginia, as pessoas podem replicar o comportamento assistido – no futuro – como se isso fosse aceitável. 

Dentro da própria casa, em Barcelona, Erika, mãe de duas meninas, vive o dilema de falar sobre sexualidade de acordo com a idade de cada uma. “Sempre tentei falar sobre sexo, da mesma forma que qualquer outra coisa, como gênero, racismo, comida, tamanho do corpo”, afirma. 

Esse tipo de diálogo, acredita, é fundamental para que pais e mães preparem crianças para saberem que a pornografia não corresponde à realidade. O que ‘The Porn Conversation sugere é: “Lembrar que não é responsabilidade da pornografia educar”.

Na entrevista a seguir, Erika Lust sugere caminhos possíveis de diálogo, os limites com cada faixa etária, as possibilidades de abordar o tema da pornografia e da sexualidade sem proibicionismo e julgamentos; e detalha como, enquanto diretora de filmes pornôs, também atua no papel de romper estigmas. Confira:

CORREIO: Quando e como é a hora de falar sobre pornografia com seus filhos?

Erika Lust: Não existe “idade certa” para começar a falar sobre pornografia com alguém, assim como não existe uma maneira “certa”. O objetivo dessa conversa não é brigar com seu filho e dizer coisas como “a pornografia é perigosa”, mas criar um espaço onde ele se sinta livre para expressar seus pensamentos, curiosidades e sentimentos sobre pornografia. Nessa conversa, eles precisam ser ouvidos, fazer perguntas e receber apoio.

Sempre acontece aquela “conversa”, aquele papo estranho entre pais e filhos sobre sexo que nenhum dos dois vai querer repetir. Mas essa conversa inicial pode ser um bom começo – é melhor do que nada. Mas melhor do que uma só conversa é educar por meio de conversas contínuas. 

Essas conversas intencionais sobre a pornografia online podem fortalecer o pensamento crítico e incentivar nossos filhos a questionar a nós, pais e mães, sobre sexo, em vez de buscar as respostas para as suas perguntas na internet.

Meninos e meninas são apresentados à pornografia da mesma maneira? 

Acho que qualquer diferença na maneira como meninos e meninas consomem ou acessam a pornografia pela primeira vez tem a ver com os padrões duplos com os quais ensinamos nossos meninos e meninas a lidar com o sexo em geral. 

“Normalmente, os meninos se sentem mais autorizados a falar sobre sua sexualidade em público e as mulheres mais envergonhadas. Nossa sociedade, historicamente, priorizou a experiência masculina sobre a feminina; tudo na sociedade foi construído a partir da visão e dos ideais masculinos”. 

A mídia de massa nos mostra que os homens estão no centro e que seus corpos, opiniões e experiências são a norma. A pornografia é só mais um reflexo disso. 

Muitas vezes, os meninos se sentem no direito de colocar expectativas sobre o corpo das meninas porque são ensinados como se tivessem o direito de apontar o dedo para elas, controlá-las e possuí-las.

“Os meninos são ensinados sobre sua puberdade por meio de ereções, ejaculações e masturbação. Já a educação sexual de meninas está focada no que não fazer, seja gravidez ou uma DST. A maioria das meninas cresce tendo vergonha de se tocar e acaba não conhecendo seus próprios corpos”.

Quando chega a hora delas terem sua primeira experiência sexual, isso acontece, na maioria das vezes, por meio de relação sexual com outra pessoa, enquanto a maioria dos meninos tem sua primeira experiência sexual sozinho, por meio da masturbação.

Isso nos mostra que, desde o início de nossas vidas sexuais, as meninas são ensinadas a entender sua sexualidade e prazer sempre associados a outra pessoa, enquanto os meninos têm experiências que os mostram que eles podem depender só de si mesmos.

Falar sobre sexo com os pais é, para a maioria, um assunto delicado. Falar de pornografia tem alguma particularidade?

Eu criei “The Porn Conversation” porque acredito que a conversa sobre a pornografia deve fazer parte da educação sexual. Como diretora de filmes de pornografia, entendo que as imagens explícitas que crio enviam uma mensagem e que essa mensagem será percebida de forma diferente dependendo da identidade do espectador.

“Todas as crianças e adolescentes merecem estar cientes sobre como a pornografia pode moldar suas percepções e expectativas em relação à sua própria sexualidade e seus relacionamentos”.

Nós, como pais, temos a responsabilidade de criar um ambiente em que nossos filhos se sintam à vontade em falar sobre sexo. Sim, há pais que estão tendo aquela “conversa” (como falei acima) em casa e algumas escolas e educadores estão fazendo seu melhor para fornecer educação sexual… quando essa educação é permitida.

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Érika Lust criou The Porn Conversation 

(Foto: Divulgação/Monica Figueiras)

No entanto, essa educação sexualmente geralmente é focada nos perigos do sexo e da reprodução e geralmente deixa de fora o tema da pornografia.Nossos filhos merecem ser ouvidos em sua curiosidade natural sobre sexo. Eles merecem saber que o sexo pode trazer muitos sentimentos positivos também.

Precisamos possibilitar esse ambiente de conversa, mostrar o que o sexo consentindo e prazeroso, e, com isso, dar a eles as ferramentas para que possam diferenciar os tipos de pornografia que podem encontrar online.

Como foi sua primeira conversa sobre pornografia com suas filhas?

Eu sempre tentei falar sobre sexualidade com elas, da mesma forma que eu falo sobre qualquer outra coisa, como gênero, racismo, comida, tamanho do corpo, etc. A ideia disso é fazer com que elas cresçam se sentindo seguras sobre elas, sua própria sexualidade e seus corpos. Elas precisam ter informações e eu uso até palavras técnicas nessas conversas. É uma conversa contínua.

Elas sabem que eu faço filmes adultos, mesmo que eu não queira que elas vejam pornografia antes dos 18 anos. Mas a verdade é que todas as crianças terão acesso à pornografia cada vez mais cedo e precisamos prepará-las para o que verão.

Elas precisam estar preparadas para saber que a pornografia, em geral, não representa o corpo médio, a vida real, e que as mulheres não devem ser tratadas da forma que são em um monte de site gratuito de pornografia.

Como você sugere que os pais ajam se descobrirem que seus filhos estão consumindo conteúdo pornográfico?

Os jovens são curiosos! E quando eles não têm acesso à educação sexual adequada, eles vão aprender sobre sexo na internet e isso, muitas vezes, quer dizer que eles vão aprender sobre sexo por meio de pornografia, que está apenas um clique de distância.

Sua reação imediata a isso pode ser: “Bem, vou banir a pornografia em todos os dispositivos da minha casa. Isso vai resolver!”. Mas, pense, é quase impossível proteger seu filho de ser exposto à mídia sexualizada, seja ela qual for.

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A diretora em set de filmagens

(Foto: Divulgação/Monica Figueras)

A solução neste momento é incentivar uma conversa sobre pornografia. Ao encorajar seu filho a questionar e criticar o conteúdo [pornográfico] ao qual ele está sendo exposto, ele pode tomar decisões mais inteligentes sobre sexo e relacionamentos em suas vidas. E essas decisões serão guiadas pelo conhecimento, não pelo medo ou vergonha.

Comece a conversa lembrando ao seu filho que o que eles veem na pornografia não é tudo. Assim como em séries da Netflix, há muita coisa que acontece fora da câmera que não está no corte final.

“Embora muitos possam ter prazer com pornografia disponível em sites gratuitos, os valores e mensagens que esses sites apresentam geralmente perpetuam e capitalizam essa visão patriarcal e supremacista branca do mundo. Toda a narrativa vai ser encaixada pelo olhar heteronormativo-masculino”.

Esse pensamento crítico incentivará seu filho a questionar seu relacionamento com a pornografia e como ela pode moldar a maneira como ele se sente em relação a si e aos outros.

Oferecer essa lente crítica permite que eles fiquem atentos quando e se forem expostos à pornografia e cresçam como indivíduos confiantes e seguros. 

É possível que seja positivo, em alguma idade, assistir pornografia?

A pornografia pode ser usada positiva ou negativamente como acontece com todo o resto. É absolutamente possível criar pornografia que não esteja enraizada na exploração e na misoginia, e promova igualdade de gênero, intimidade, diversidade, consentimento afirmativo, segurança, prazer e liberdade.

Pornografia que é feita com um processo de produção ético, em que todos os envolvidos são tratados e compensados de forma justa e o consentimento de todos é atendido. É isso que produções independentes adultas como a minha vêm fazendo há mais de duas décadas.

Quando criança, existem problemas específicos que podem surgir ao assistir pornografia? 

Não só problemas advindos da pornografia, mas da mídia de massa em geral, que podem colocar expectativas irreais em pessoas. A sexualidade dos homens é distorcida pela mídia como um impulso para conquistar e possuir, enquanto a sexualidade de uma mulher é frequentemente retratada como dependente do desejo dos homens.

“A maior parte da pornografia online gratuita não representa pessoas de todos os gêneros, raças, orientações sexuais, idades e habilidades de forma igual e respeitosa”

Muitos vídeos representam a violência e a  coerção como coisas normais, mas não mostram o consentimento como prioridade. O espectador ideal do pornô mainstream é um homem, e a imagem da mulher é projetada para bajulá-lo. No pornô heterossexual dirigido por homens, a mulher torna-se o objeto – do cineasta, do ator e do espectador.

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“Precisamos preparar as crianças para o que verão”

(Foto: Divulgação/Monica Figueras)

Quanto às mulheres que assistem a esses filmes dirigidos por homens, sua experiência é sempre secundária, pois ela vivencia uma narrativa identificada por um olhar masculino.

As mulheres são a força motriz da indústria (na maioria das vezes não dá para ver o rosto do homem, apenas o pênis dele penetrando nela!), mas, ao mesmo tempo, os corpos delas são representados como objetos de um olhar predatório.

“O fato é que a pornografia se tornou a educadora sexual de nossos filhos. Mas precisamos lembrar que não é responsabilidade da pornografia educar. Nunca foi! A pornografia é uma performance, uma representação das fantasias dos criadores, cuja intenção é excitar e entreter, não ser um tutorial sobre sexo”.

Uma mensagem que normalmente não é promovida na pornografia é que todos nós temos o direito de comunicar nossos desejos claramente, estabelecer limites e deixar claro que o consentimento é essencial para experiências respeitosas e prazerosas.

Que tipo de pornografia os jovens costumam assistir?

O mais acessível: pornografia online gratuita.

Sua proposta de abordar o tema da pornografia pode causar polêmica entre os pais. Você já foi acusado de incentivar a pornografia para os mais jovens?

Até agora, tenho sido mais acusada de ser uma feminista ruim ou uma ‘falsa’ feminista, especialmente por algumas feministas que pensam que não existe ‘pornografia feminista’, pois a pornografia em si seria sempre inerentemente exploradora. Mas a pornografia, como gênero cinematográfico, não é uma entidade sexista.

Há uma tendência de falar sobre pornografia como se fosse isso, mas assim como qualquer outra grande indústria, existem diferentes empresas fazendo coisas diferentes dentro da pornografia. Existem muitos tipos de estúdios pornográficos e cinematográficos por aí, você só precisa procurar aquele que se adapte melhor às suas fantasias.

Estamos trabalhando para parar de mostrar estereótipos de gênero prejudiciais e começar a retratar homens, mulheres e pessoas de todos os gêneros, corpos e etnias com desejos igualmente importantes.

Estamos trabalhando para evidenciar claramente o consentimento em vez de encorajar simulações de sexo com coerção, pedofilia ou abuso. Estamos criando uma pornografia relacionável, em que as pessoas possam se ver nos filmes, se inspirar, se educar e ser receptivas à variedade de sexualidades que existem.

Para muitos espectadores, o cinema adulto alternativo os ajuda a celebrar sua sexualidade. Existe a suposição de que a pornografia e o trabalho sexual são sempre mais exploradores para as mulheres, o que não é verdade. 

Quando você descobriu seus incômodos em relação à pornografia?

Quando assisti pela primeira vez um filme pornô, eu era adolescente e lembro de um conflito interno que tive. O vídeo me excitou de alguma forma, mas, ao mesmo tempo, não era muito agradável, senti que algo estava errado, tanto eticamente quanto em termos de conteúdo. Eu entendia que aquilo era apenas uma fantasia, mas também estava ciente de que havia muito mais na sexualidade do que estava retratado.
 
Também ficou claro, depois, que a pornografia não foi criada com o público feminino em mente. O espectador ideal é o homem. Quando você é adolescente e mulher, é fácil concluir que algo está errado com você e que a pornografia não é para você.

Falando especificamente sobre atores e atrizes: qual é a diferença entre atuar em seus filmes e atuar em outros tipos de filmes?

Todas as cenas de sexo em nossos filmes são filmadas no modo freestyle, e é isso que as torna mais naturais e relacionáveis. Em comparação com o cenário típico da indústria mainstream, temos uma grande equipe com todos os departamentos necessários para criar um filme de qualidade cinematográfica.

Tudo isso pode parecer muito diferente para um artista vindo de sets de pornografia convencionais. Os únicos departamentos que estão lá durante a cena de sexo são a direção, a câmera, o som, o fotógrafo e, claro, o gerente de talentos/coordenador de intimidade, que garante que os artistas estejam sendo atendidos o tempo todo e se sintam seguros para explorar sua sexualidade sozinhos ou uns com os outros.

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A diretora defende que a pornografia é entretenimento e que educar é função das famílias

(Foto: Divulgação/Monica/Figueras)

Não queremos que ninguém se sinta obrigado a fazer nada ou inseguro/desconfortável sobre qualquer coisa relacionada à cena de sexo. Em geral, queremos que os artistas se sintam apoiados e livres para expressar suas opiniões e sentimentos a qualquer momento.

Uma vez que temos o elenco para um filme, providenciamos para que os atores se conheçam com bastante antecedência. Perguntamos se e quais brinquedos sexuais ou acessórios eles gostariam/precisam, se querem usar camisinha e discutir seus limites em geral; existem práticas ou posições que eles não gostam ou gostariam de explorar? Também garantimos com semanas de antecedência que sejam testados negativos para DSTs (e, neste momento, também para COVID-19).

Fazer filmes adultos produzidos eticamente significa que há um entendimento de consentimento entre todos no set, que precisam estar ciente das complexidades inerentes ao trabalho sexual. Minha equipe e eu precisamos garantir que o set seja um ambiente de sexo seguro no qual os artistas possam explorar sua sexualidade de maneira confortável e descontraída.

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