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Artistas e produções baianas usam cultura como ferramenta contra a LGBTQIA+fobia

Escrito por Redação

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A cultura é uma ferramenta poderosa de luta e reivindicação por direitos existenciais. É assim em vários lugares do mundo e, em Salvador, não é diferente. Reconhecida como a cidade da música e tendo produtos culturais como sua principal vitrine, é de se esperar  que a população LGBTQIA+ se aproprie dela para trabalhar e resistir.

Na terça-feira (28) foi comemorado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, ponto alto do mês marcado por manifestações ao redor do mundo e a cultura é um forte guia para essas ações. Um dos destaques nacionais, a Parada do Orgulho de São Paulo, maior da América Latina,  neste ano contou com artistas como Pabllo Vittar arrastando trio elétrico na Avenida Paulista na semana passada. A Parada já foi retratada em produções internacionais como a Sense8, do Netflix. Mais cultura. Mais produtos culturais.

Mestre em Cultura e Sociedade pela Ufba e pesquisador do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Cultura e Sexualidade da Universidade Federal da Bahia (Nucus/Ufba), David Souza afirma que a utilização da arte como meio de transformação e ascensão social para pessoas negras não é nenhuma novidade na história do Brasil e que iniciativas como o Bando de Teatro Olodum ou o Teatro Experimental do Negro, de Abdias Nascimento, são bons exemplos de que essa história não é de hoje.

Com a arte em mãos, pessoas negras buscam valorização de seus corpos, narrativas e a construção da ideia de que podem ser referência e podem ser diferentes do que a realidade impõe. Mas, apesar da vontade e dos casos de sucesso, o pesquisador pondera que ainda é muito difícil para uma pessoa de pele escura e LGBTQIA+ conseguir espaço dentro da arte, principalmente em comparação às pessoas brancas.

“Pessoas LGBTQIA+ negras têm um duplo estigma na sociedade. Ou seja, perdem duplamente os acessos e possibilidades para uma ascensão ou mudança social. No entanto, é fato que a arte tem um caráter libertador e, através dela, pessoas negras têm a oportunidade de escrever novos roteiros, fazer denúncias e se descobrir”, reflete. 

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Matheus posa para foto durante produção no Centro Cultural de São Paulo (Foto: Rodrigo Ladeira/Divulgação)

Palco e bastidores
É nessa busca por valorização que Jéssica Dantas, 28, acredita. Ela foi produtora executiva da festa Batekoo em Salvador e, este ano, estreou a Dendê Sounds, evento só com mulheres. Para Jéssica, seu trabalho com a cultura é uma ferramenta de enfrentamento por ser realizado por pessoas LGBT e pensando no público LGBT, no palco e nos bastidores.

“Quando comecei a  trabalhar, já me identificava como lésbica, ou sapatona como prefiro dizer. Viver em um meio de arte, de cultura viva e  voltada para pessoas negras e LGBT facilitou muito o caminho para aceitar a minha sexualidade”, afirma Jéssica.

Na mesma linha, o artivista Alan Costa, 32, idealizador do coletivo Afrobapho, diz que a cultura não foi o caminho para descobrir e aceitar sua sexualidade porque quando chegou nessa área, discotecando e produzindo festas em 2012, já sabia muito bem quem era.

No entanto, ele garante que houve um amadurecimento desde que mergulhou no Afrobapho. Para Alan, que também é mestrando em Gênero e Sexualidade na Ufba,  seu trabalho é necessário para lutar contra a lgbtfobia, racismo e opressões sobre corpos considerados dissidentes pela sociedade.

O Afrobapho, inclusive, nasceu para ampliar essa discussão e conversar com públicos sem acesso à ambientes como universidades e academias. A ideia era usar ferramentas como a rua, a moda, a música e o audiovisual para marcar a posição de corpos LGBTI+ e buscar mais respeito às escolhas individuais de cada pessoa.

“Cultura e arte foram importantes para explorar a identidade, sexualidade, interesecção entre raça e sexualidade. Cultura e arte permitiram entender mais o processo e entrar em comunhão com outras vivências”, resume.

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A sorridente Jéssica Dantas posa para a foto entre uma correria e outra na Dendê Sounds (Foto: Ayala Aoli/Divulgação/Dendê Sounds)

Cantora de 32 anos, Inaê também é atriz, cantora, professora da rede municipal de ensino em São Francisco do Conde e membra fundadora do Coletivo das Liliths. Ela conta que todas as experiências profissionais que vivenciou colaboram para ser a profissional que é.

A trajetória artística foi influenciada por duas mulheres: a mãe, médica que sonhava em ser cantora, e sua avó, que define como um canarinho afiado.

“Acredito que a arte me deu ferramentas para eu me conhecer com maior profundidade. Nunca foi uma questão de me aceitar, mas sim de me conhecer. (…) A cultura, muito mais que um caminho pra descobrir meu gênero e minha sexualidade, foi e ainda é um caminho pra descobrir quem sou. Ser artista e estar envolvida com artes é a forma que eu encontrei de me relacionar comigo mesma e com o mundo”, contou Inaê.

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Inaê é cantora, professora e atriz (Foto: Divulgação)

Ela diz que trabalhar com arte e cultura sempre será uma forma de combater a transfobia, não apenas pelo conteúdo ou natureza dos projetos, mas ao olhar quem está à frente dessas iniciativas. Primeira professora trans de São Francisco do Conde, região Metropolitana de Salvador, ela acredita que a liderança de projetos culturais são espaços de poder e tomada de decisão.

“‘É comum resumir o meu trabalho a questões que permeiam meu corpo. Tenho plena convicção que meu corpo é marcado e o fato de ser trans faz com que essa palavra, ‘trans’, chega nos espaços antes de mim. ‘Tá vindo aquela tal professora trans…  é Inaê, né?!” e pouco ou nada se fala da minha pesquisa, metodologia de ensino”, disse Inaê, falando sobre os riscos de resumirem seu trabalho à sexualidade e identidade gênero. 

Ela completa: “A comunidade trans é uma comunidade como qualquer outra, que possui vários interesses. Falamos não só da gente, mas do mundo, como qualquer pessoa. Logo não é uma questão de trabalhar com cultura, ao meu ver, mas trabalhar com o que quiser e ter condição de trabalhar com o que quiser”.

Que samba é esse?

Idealizador do Samba de Quinta, Matheus de Morais trabalha como produtor há sete anos. Começou com moda e publicidade, mas desde que participou da primeira edição do Afropunk decidiu que queria tirar do papel uma ideia que oferecesse uma experiência diferente de só sair para tomar uma com os amigos e decidiu migrar para o setor de entretenimento para realizar esse desejo.

Assim nasceu o Samba de Quinta: um samba que pensa no público LGBTQIA+ e, num ambiente com regras sociais implícitas e heteronormativas como o samba, Matheus e sua equipe conseguiu construir algo diferente. Tão bonito, negro e inclusivo quanto é o samba.

“O ambiente do samba em si é muito heteronormativo. Não quer dizer que é um ambiente só de pessoas heterossexuais, é para além disso. O ambiente do samba é do comportamento das pessoas. Há uma divisão entre o comportamento entre homens e mulheres: comportamento, vestimenta, o homem de um lado, as mulheres de outro, os casais curtindo muito e o gay no lugar de chaveirinho, bobo da corte, exótico, a pessoa engraçada que vai servir de entretenimento não pra ele em si, mas para o outro naquele ambiente. Isso me incomodava”, disse o produtor, que despertou sua paixão pelo samba graças ao avô e à prima que o levou para todo tipo de samba da cidade.

Matheus conta que o Samba de Quinta tem tudo a ver com o Dia do Orgulho LGBTQIA+ e uma coisa não tem como se dissociar da outra. “O Samba de Quinta é mais do que mais um samba, mais uma festa, uma experiência. Por si só, ele é político porque é formulado por pessoas negras e LGBTI+. Toda a produção é assim. Ele é pensado para esse público, sabe? Queremos atender a demanda de pessoas negras e LGBT. Lá tem uma diversidade enorme de corpos, faixa etária por mais que tenha uma maioria jovem, mas a nossa população pode beijar, curtir, sem nenhum receio”, contou.

Segundo o Levantamento do Grupo Gay da Bahia, já realizado há 40 anos, 300 LGBT+ sofreram morte violenta no Brasil em 2021, 8% a mais do que no ano anterior: 276 homicídios (92%) e 24 suicídios (8%).  O Brasil continua sendo o país do mundo onde mais LGBT são assassinados: uma morte a cada 29 horas. 

A nível nacional, em 2019 o Supremo tribunal federal (STF) equiparou a LGBTfobia ao crime de racismo, reconhecendo que a ausência de legislação especifica constituiu uma omissão do Congresso Nacional. A partir dessa decisão é possível fazer o registro de uma ocorrência que seja não só um crime de discriminação, mas um crime de LGBTfobia especificamente.

O uso da cultura para a luta é a maneira que pessoas da sociedade civil encontram para mudar as realidades de emprego, renda e buscar dignidade na vida de pessoas que, apesar da legislação, continuam vivendo sob a incerteza de serem como bem entendem. É preciso, portanto, mudar a cultura – e pessoas como Jéssica, Matheus, Alan, Inaê e seus projetos são passos para essa caminhada.

*Glossário LGBTQIA+

Lésbicas –  Mulheres que sentem atração afetiva/sexual por outras mulheres; 

Gays –  Homens que sentem atração afetiva/sexual por  outros homens; 

Bissexuais – Pessoas que sentem atração afetivo/sexual por homens e mulheres; 

Travestis, Transexuais e Transgêneros –  Não se relaciona com a orientação sexual, mas   identidade de gênero. Corresponde às pessoas que não se identificam com o gênero atribuído em seu nascimento; 

Queer – Pessoas que não se identificam com os padrões cis e heteronormativos;

Intersexo –  Pessoas cujas combinações biológicas e desenvolvimento corporal – cromossomos, genitais, hormônios, etc. – não se enquadram na norma binária (masculino ou feminino); 

Assexuais – Pessoas que não sentem atração sexual por outras pessoas;

Interseccionalidade –  Estudo da sobreposição ou intersecção de identidades sociais e sistemas relacionados de opressão, dominação ou discriminação;

Cisgênero – Pessoas que se identificam com o gênero atribuído em seu nascimento;

*Fonte da pesquisa: Educa Mais Brasil

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