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Voto útil vira arma na disputa polarizada pela Presidência da República

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As últimas pesquisas de intenção de votos divulgadas nesta semana – em especial a do Instituto Datafolha – reforçaram a percepção de que a disputa à Presidência da República pode ser decidida em primeiro turno pelo candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva (SP).

O chamado voto útil – aquele que é dado não ao candidato da preferência do eleitor, mas a quem possa evitar a vitória do adversário indesejado – é tratado como estratégico para os dois nomes que polarizam a atual disputa. De acordo com a pesquisa Datafolha, Lula venceria no primeiro turno com 54% dos votos válidos, contra 30% do presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ), que tenta a reeleição.

Para o segundo colocado, os números são preocupantes, mas não a ponto de provocar mudanças significativas no projeto de reeleição. Os governistas ainda se fiam na tese de que o eleitorado de Bolsonaro é suficiente para levá-lo ao segundo turno, e será engrossado pelo voto útil antipetista. O desafio, agora, é trazer de volta aquele eleitor que votou no presidente em 2018, mas se afastou dele depois de três anos e meio de crise econômica, de ataques à democracia e às instituições e do palavreado agressivo que caracterizam o estilo de comunicação do atual mandatário. “Ruim comigo, pior com Lula”, disse um apoiador do presidente ao referir-se à forma de abordagem desse eleitor arrependido.
Nas hostes petistas, a vitória no primeiro turno nunca esteve fora do radar. Ao contrário. A estratégia de comunicação foi mudada ao longo das últimas semanas, justamente, para consolidar a percepção de que só Lula pode derrotar Bolsonaro. Avançar sobre outras forças de oposição ao presidente é natural e vem sendo trabalhada internamente. Um dos alvos prioritários é o eleitor tucano que não se identifica com o discurso de direita. O partido está trabalhando intensamente para atrair os descontentes do PSDB, em especial, da chamada ala histórica do partido. A adesão do ex-chanceler Aloysio Nunes (PSDB-SP) é o primeiro troféu conquistado com a retórica do voto útil. “Não há hesitação possível”, declarou o chanceler quando anunciou seu apoio ao candidato do PT já no primeiro turno. A saída do ex-governador João Doria (PSDB-SP) da disputa facilita essa abordagem.
Além das pesquisas, as poucas opções disponíveis para uma terceira via competitiva reforça a tese em favor do voto útil. Para o doutor em ciência política Leonardo Barreto, da consultoria de risco político Vector Research, “há demanda” para um candidato alternativo de centro, com o chamado eleitor nem-nem (nem Lula nem Bolsonaro). O problema, segundo ele, é que não há “oferta”.
“A polarização não é inédita no país, desde 1992 é assim. Só em 2014, com Marina Silva e Eduardo Campos, o cenário foi mais amplo. O que chama a atenção, agora, é a intensidade da polarização”, apontou. Para ele, um dos fatores que explica essa “intensidade” é o voto determinado pela rejeição. “Em vez de votar em Ciro Gomes (PDT) ou em Simone Tebet (MDB), o eleitor antecipa o segundo turno. É a ideia de não desperdiçar o voto. Com o cenário já dado de polarização, muitos eleitores não vão querer ‘queimar voto’ no primeiro turno em candidatos que já sabem que vão perder.”
Terceira via Essa percepção é compartilhada por quem acompanha, de dentro, os passos da pré-campanha de Bolsonaro à reeleição. Uma das frases ouvidas nos corredores do Palácio do Planalto é que “a campanha já começa no segundo turno” – uma referência de que não haverá outro nome competitivo na disputa em primeiro turno. “O que a gente não sabe é se haverá terceiro turno”, disse um dos estrategistas da pré-campanha bolsonarista. Segundo essa fonte, a campanha para valer ainda não começou e a eleição não será decidida em 3 de outubro. Mas, disse ela, está claro o movimento para inviabilizar a terceira via e “acabar com a eleição do Ciro (Gomes)”.
A percepção de que o cenário eleitoral já está definido e que a polarização é irreversível está pautando, também, os movimentos do PSDB. “Depois de fritar (João) Doria, o PSDB está, agora, fritando o acordo da terceira via que, hoje, se limita a Ciro Gomes”, avaliou Leonardo Barreto. Não há, porém, nenhuma intenção do PDT de abandonar o seu pré-candidato, em que pese a boa relação entre o presidente da legenda, Carlos Lupi, e o ex-presidente Lula. Ao contrário, qualquer referência ao apoio do PDT a Lula costuma irritar o pré-candidato pedetista.
A coordenação da campanha do PT não quer confusão com Ciro e evita falar em voto útil. Neste momento da pré-campanha, com a cristalização do cenário polarizado, a prioridade do partido é avançar nas negociações com legendas que não têm candidato à Presidência, como PSD, Podemos e PSDB.
“Ninguém quer brigar com Ciro, até porque o eleitor dele votaria no Lula se Ciro não fosse candidato”, disse ao Estado de Minas o coordenador de comunicação do PT, Jilmar Tatto. Para ele, é o eleitor quem está ditando os rumos da eleição. “Aquela euforia pela terceira via não está mais existindo. A última vítima foi João Doria. Não foi o PSDB que o tirou da disputa, foi o eleitor”, disse Tatto. “O comportamento do PT é de não instigar candidaturas que enfrentam dificuldade. Não vamos fazer nenhum movimento para tirar a candidatura de Ciro. Deixe o Ciro ser candidato”, concluiu.
Para políticos do PDT, Ciro deve levar a candidatura adiante e se contrapor ao discurso do voto útil. “Lula tem uma relação pessoal com o Carlos Lupi. Eu acho natural que ele busque uma aproximação, como também acho natural o Ciro não gostar disso. O PDT é um partido do campo progressista também, o PT querer essa aproximação é natural. Cada um no seu quadrado. Não acho que exista essa possibilidade (de apoio a Lula), pelo menos no primeiro turno”, declarou ao EM o deputado Wolney Queiroz (PDT-PE). “Ciro é o nosso candidato. Ele critica, sim, algumas posições defendidas pelo ex-presidente Lula, e ele tem um estilo próprio, uma linguagem própria. Nós temos uma posição muito fechada com o Ciro”, reforçou o deputado Chico D’Angelo (PDT-RJ).

CONFIANÇA NAS URNAS 

Em dois meses, a confiança dos brasileiros nas urnas eletrônicas (foto)  diminuiu. O novo levantamento do Instituto Datafolha, publicado ontem, revelou uma queda de nove pontos percentuais na taxa de confiança dos entrevistados em relação à última pesquisa, realizada em 25 de março. Apesar da queda, a confiança ainda é predominante entre os brasileiros: 73% afirmaram acreditar no sistema eleitoral, ante 24% que se denominam desacreditados das urnas e 2% que não souberam opinar. Em março, o nível de confiança era de 82%. Em contrapartida, a taxa dos que não confiavam nas urnas eletrônicas era menor: 17% dos entrevistados disseram que desacreditam da segurança da forma de se elegerem figuras políticas. Feito entre quarta (25/5) e quinta-feira (26/5), o levantamento entrevistou 2.556 pessoas, acima de 16 anos, em 181 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou menos.

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