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Preço do trigo dispara após Índia suspender exportações; pão pode encarecer

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A cotação do trigo, que já vinha em alta desde o começo da guerra na Ucrânia, voltou a bater recorde nesta segunda-feira (16/5) no mercado europeu, após o anúncio da Índia de suspender suas exportações do grão.

 

 

 

A tonelada de trigo para panificação fechou hoje em 438,25 euros no Euronext, um recorde absoluto para o grão, que já estava sendo negociado a preço de ouro no mercado mundial.

“Este é um recorde absoluto para todos os vencimentos do Euronext. O recorde anterior remonta a 7 de março de 2022, quando o trigo fechou em 422,50 euros por tonelada”, disse à AFP Damien Vercambre, corretor da Inter-Courtage.

A Índia, o segundo maior produtor mundial de trigo, proibiu no sábado a exportação do grão, a menos que haja uma autorização especial do governo. A decisão foi adotada no momento em que o país vive uma queda de produção devido a ondas de calor extremo.

Nova Délhi, que havia se comprometido anteriormente a fornecer trigo aos países frágeis dependentes das exportações da Ucrânia, alegou que a decisão tem como objetivo garantir a “segurança alimentar” de seus 1,4 bilhão de habitantes.

Também no sábado, os ministros da Agricultura do G7 afirmaram que a suspensão das exportações de trigo indianas “agravariam a crise” de abastecimento mundial de cereais provocada pela guerra da Ucrânia.

Agora, “os mercados reagem com mais força, pois o embargo da Índia a suas exportações de trigo contradiz suas promessas anteriores sobre o fornecimento mundial”, destaca Gautier Le Molgat, analista da consultoria agrícola Agritel.

Alternativas para o trigo da Ucrânia 

Nos mercados mundiais, a preocupação é ainda maior, pois a Índia, inicialmente um exportador mediano de trigo, estava a caminho de se transformar em um importante ator do setor: exportou 7 milhões de toneladas em 2021 e apostava em chegar a 10 milhões este ano, convertendo-se em uma das alternativas possíveis ao trigo ucraniano.

Antes do conflito, iniciado com a invasão russa em 24 de fevereiro, a Ucrânia era o quarto exportador mundial de milho e estava se tornando o terceiro maior fornecedor global de trigo.

Sua produção de trigo pode se reduzir gravemente este ano, segundo as previsões do Departamento de Agricultura americano (USDA, na sigla em inglês), que considera que Kiev terá apenas capacidade de exportar 10 milhões de toneladas em 2022, contra 19 milhões de toneladas um ano antes.

O preço do trigo aumentou 40% desde o início da guerra e segue alto devido aos riscos de seca nos Estados Unidos e na Europa ocidental.

Nesse contexto, e com a guerra da Ucrânia se prolongando no tempo, a promessa de trigo indiano havia aliviado um pouco os mercados, em especial no Oriente Médio e na Ásia, clientes tradicionais da Índia.

Para os observadores, os preços vão seguir altos, pois “a demanda sempre vai existir”.

 

Momento de cautela para o mercado brasileiro

 

Para o presidente do Sindicato e Associação Panificação e Confeitaria de Minas Gerais (Amipão), Vinicius Dantas, a decisão é preocupante para o mercado brasileiro. 

 

“Quem importa da Índia vai passar a importar de outro mercado e, consequentemente, traz uma alta de preços para o Brasil. Nós somos hoje importadores da Argentina, além de Estados Unidos e Canadá. Mas grande parte do trigo que entra no Brasil vem da Argentina.”

 

Dantas lembra que o país está no período de entressafra. “Só teremos trigo brasileiro a partir de setembro e outubro.” Além disso, tem a guerra entre Rússia e Ucrânia, dois dos maiores produtores do grão no mundo. “Acredito que não se consegue baixar o preço do trigo. Ele se estabiliza no patamar em que está porque houve uma queda de venda.”

 

O presidente da Amipão acredita que o momento é de cautela. “Para o setor da panificação, o momento é de gestão. Esse conflito (no Leste Europeu) mexeu muito com a panificação. Tivemos um início de repasse, precisamos alinhar para garantir um preço possível para o consumidor, já que o salário não está subindo nos patamares de aumento da matéria prima. Precisamos achar um equilíbrio.”

 

Dantas ressalta que além do trigo, para fabricação do pão existem ainda custos com locação, energia elétrica, pagamento de funcionários. “O percentual de 15% a 20% do custo do pão é trigo. Precisamos administrar e tentar segurar um pouco esse repasse porque ele pode ser perigoso para o setor.”

 

Ele destaca que existem outras indústrias que concorrem com a da panificação, como a do biscoito, por exemplo. “Em uma mudança de hábito do consumidor por uma questão de preço, pode afetar o segmento.”

 

 

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