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A inteligência de Gilberto Gil humilha, redime e ensina a todos nós

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Outro dia eu tava pensando sobre a pretensão que é a gente dizer que alguém é “inteligente”. Arrogância sem fim porque, observe: para reconhecer a inteligência do outro, supomos a nossa própria superioridade intelectual que vai lá e valida a inteligência alheia como quem diz “olha um igual a mim”! Uma enrascada e, mais ainda, se a gente lembra da quantidade de bolhas lotadas de nematelmintos batizados se achando geniais e você sabe que isso é comum. Fora a verdade de que há diferentes tipos de inteligências e burrices, dificilmente alguém é completamente inteligente ou completamente burro. 

(Quer dizer, mais ou menos, esta última situação. Mas, sigamos.) 

No fim das contas, o que eu quero dizer é “quem sou eu pra julgar a inteligência de alguém”, por mais que eu me considere pacas. Principalmente a de um cérebro brasileiro imortal e reverenciado por multidões desde antes de eu nascer. No mínimo, chover no molhado, descobrir o fogo e tal. Mas, veja, é que o Roda Viva dessa segunda-feira (23) foi, pra mim, uma experiência transcendental. Além de recomendar a você que assista – se ainda não o fez – quero lhe dizer do quanto a inteligência de Gilberto Gil humilha, redime e ensina a todos nós.

Tanto humilha que já começam a chamar de orixá, dar ares divinos, tirar dos parâmetros de humanidade. Compreendo. Também sinto vergonha do fato de que, podendo ser aquilo – porque humanamente possível – sejamos isso que temos sido. Isso que, só num exemplo recente, veta Nise da Silveira (!!!) e segue (nos) matando asfixiados em camburões. Mas não só nesses casos extremos, não só na perversão. O mediano, o “bonzinho” e até o “sucesso” também vai de mal a pior. Então, desumanizar quem transcende, quem olha tudo isso de cima, nos consola da incompetência e mediocridade na qual estamos imersos sabe deus até que dia. 

Se flertamos com a ideia de que Gil (e fazem isso com outros homens e mulheres que mostram sabedoria) é “orixá”, “divindade”, construímos – ainda que na forma de “brincadeira” e “máximo respeito”  –  uma barreira de “espécie” que nos desincumbe de até tentar chegar perto daquela inteligência sofisticadíssima e, ao mesmo tempo, compreensível até para um jegue que tenha nome de batismo. Porque ainda tem isso: os cérebros mais interessantes, úteis para a humanidade, se traduzem, se explicam, se fazem acessíveis. É tudo simples como respirar. 

“Os verdes campos parecem com os verdes mares que parecem com os céus azuis. Drama, risos, lágrimas… tudo vai se juntando. A vida é feita para que tudo isso esteja junto”, ele falou. Viu que deu pra entender, pelo menos, a primeira lição? Resumindo, deixe de presepada e agonia, de achar que seu caso, seu momento, seu umbigo, seu país, seu tempo, seu amor é lá grandes coisas jamais vistas. Tudo esteve, está e estará por aí. Tudo é grave, único e, também, comum. É a vida. Perceba contexto. Envelheça. Respire. Olhe pra fora. O mundo não é só sua interjeição, seu discurso, seu ponto de observação. 

Talvez, só seja possível suportar – é até arrisco um “ser feliz” – assim. Entendendo o que Gil quer dizer. Viajando numa viagem assim. Não é só ele que pensa direito, mas é dos raros – raríssimos – que se dão ao trabalho de explicar. Pacientemente. Buscando uma metáfora ali, uma consciência social aqui, uma falta de espanto acolá, uma nota, uma melodia, mostrando um costume ancestral de estar entre os seres da Terra. Ele é daqui e isso é o mais sensacional. 

(Na certa, por isso mesmo.)

Eu morreria de medo, não queria estar naquela bancada de jeito nenhum. Formada por pessoas interessantes, até, mas que, por comparação… coitadas. Nenhuma pergunta pareceu mais do que medíocre. Tirando a piada de Caetano, por vídeo – que foi engraçada e contava algo do Tropicalismo – tudo era convite a um jeito de pensar já ultrapassado, por Gil, parece que há uma encarnação. Já dado por visto, resolvido, vivido, revisitado. Quer um exemplo? Vou lhe dar. 

Alguém pergunta se ele consulta os orixás pra tomar decisões ao que Gil responde: “Tenho pensando em outra coisa, em qual é a utilidade da fé” e segue “há dois modos de você se colocar diante da fé. Um é o modo da súplica. (…) Há um outro modo (…) que é o modo da confiança. Você não pede nada, você confia em tudo”. Pronto. Fé é mais uma ferramenta do humano, rebain. Está a nosso serviço e não o contrário. Cada pessoa usa, se quiser, como puder e quiser usar. Isso, em âmbito privado e individual, que é onde cabe esse acreditar. Pouco importa discutir para onde se dirige a fé e se há. Esta, a conversa que não presta pra nada, mas inflama multidões. E mata. 

 A gentileza do entrevistado é tanta que corre o risco de a gente nem perceber certas variações de humor. Mas a voz fica mais aguda, as mãos se movem mais e veja o que ele disse ao responder a uma pergunta de Jorge Mautner, lida pela filha, na bancada. A pergunta era “Por quanto tempo ainda vamos esperar a conclusão da abolição?”. “Esperar?”, Gil pareceu pensar antes de explicar, tim-tim por tim-tim, respondendo a mais um convite para o caminho do óbvio de onde se afasta cada vez mais.

“A discussão sobre a ‘racialidade’, a mistura, a raça negra, a raça branca, a raça indígena e a mistura que se dá no Brasil. Essas discussões todas dão no avanço da abolição. (…) A busca da igualdade, a disputa pelo lugar igualitário (…), esse jogo todo continua. Temos avançado.” A MISTURA que se dá no Brasil. Ponto. “Viva a mestiçagem no sentido cultural. (…) Ela que é o solvente para os conflitos.” Pincei de outro momento, mas também faz sentido aqui. Respeito à ancestralidade, ciência dos embates necessários, percepção da beleza que podemos ser e reconhecimento do percurso, do movimento. Oi? Esperar? 

Depois, a semana foi dificílima com o “cancelamento” oficial de Nise da Silveira no “Livro dos heróis e heroínas da Pátria” e o assassinato de Genivaldo de Jesus Santos, um paciente psiquiátrico, numa viatura da Polícia Rodoviária Federal transformada em câmara de gás. Ele era esquizofrênico. Ela, a psiquiatra brasileira que, “apenas”, revolucionou a psiquiatria ao questionar procedimentos como eletrochoque e lobotomia, propondo, em resumo, tratar esses pacientes como humanos que são. O roteirista anda perverso, eu acho. Né não? 

Vamos dizer que, se você trata sua depressão, hoje, em sua casa, se conseguimos falar de questões psiquiátricas não como grandes e intransponíveis maldições, se há qualquer humanidade na lida com nossos “loucos”, devemos boa parte disso à Dra. Nise da Silveira. Uma médica alagoana formada em 1926, única mulher em uma turma de 158 alunos. Absolutamente revolucionária, inventou a arteterapia e os resultados estão aí até hoje. Mudou a rota da psiquiatria que, à época, havia avançado bem pouco, em conceito, desde as “naus dos loucos”. Mas o presidente não achou essa personalidade suficientemente relevante. Pois bem. Sigamos. 

Não quero pensar em quem é relevante, para certos olhares. Quero reverenciar quem é relevante pra mim. Que bom precisar escrever este artigo hoje e poder fechar a semana com Gil na cabeça. Também pensando em Nise e em tudo de incrível que humanos podem ser. Nas belezas, esquinas e possibilidades de cérebros que importam. Quero ler, ouvir boa música, ter boas conversas. Tô rindo aqui, lembrando que Gil disse que, quando morrer, espera que ” tenha Deus de um lado, o Diabo do outro e eu converse com eles”. Quero a mesma coisa. Na moral. Só não sei se, até lá, vou me transformar em alguém a quem eles queiram dar papo. Espero ter tempo pra tentar. A Gil, com certeza, darão. E ainda vão disputar a atenção desse belíssimo exemplar da espécie. Que, nos atuais tempos sombrios, também é um pouco da nossa redenção.

*Flavia Azevedo é articulista do Correio, editora e mãe de Leo

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